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Um ou outro
Eduardo sempre carregou Mateus dentro de si. Não que fossem iguais, longe disso: Eduardo era arredondado, expansivo, enquanto Mateus era seco, angular, com gestos mais contidos. Eram dois extremos que se equilibravam, e nunca ninguém viu os dois juntos. Ainda assim, de alguma forma, parecia natural que fossem inseparáveis.
Ambos haviam se formado no mesmo curso, no mesmo ano. Mateus seguiu na advocacia; Eduardo, não. Após herdar uma fortuna, deixou de lado a carreira que nem chegou a construir. Preferia se dedicar às “coisas que realmente importavam”, como dizia. Entre elas, Mateus. Eduardo organizava papéis, buscava documentos, fazia recados, interagia com as pessoas. Mateus, por outro lado, era o eixo, quem tomava decisões e lidava com o mundo de forma prática, mesmo que sempre isolado.
“Você precisa se casar, Mateus. Um advogado deve ter uma família”, dizia Eduardo. Mateus sorria, sem se comprometer. “Já tenho o suficiente”, respondia, enquanto arrumava os papéis na mesa. Eduardo não insistia.
Foi por essa época que Helena apareceu. Era prima de Eduardo, com modos delicados e um jeito que fazia o tempo parecer mais lento. Eduardo, aos poucos, se viu fascinado por ela. Começou a inventar motivos para visitá-la, prolongava conversas que não tinham fim. Um dia, sem saber exatamente por que, contou para o Mateus.
“Eu amo Helena”, disse, olhando para as próprias mãos. Mateus, que revisava um processo, parou. Não respondeu de imediato. Deixou a caneta sobre a mesa e olhou pela janela, para algum ponto no horizonte.
“Você acha que isso é uma boa ideia?”, perguntou, depois de um tempo.
Eduardo não soube como reagir. “Por que não seria?” Mateus desviou o olhar. “Você faz o que achar melhor”, respondeu, voltando ao trabalho.
Naquela noite, Eduardo não dormiu. Revivia a cena na cabeça, procurando alguma resposta que ele não soube captar. A maneira como Mateus havia encerrado o assunto o deixava inquieto. Durante dias, evitou encontrá-lo. Ao mesmo tempo, também não conseguia falar com Helena. Se sentia suspenso, como se vivesse na sala de espera de algum departamento público.
Certa manhã, decidiu confrontar Mateus. Entrou no escritório sem aviso. Mateus estava inclinado sobre a mesa, os papéis espalhados ao redor. Levantou os olhos, mas não disse nada.
“Por que você nunca diz o que pensa?”, Eduardo perguntou, firme. “Você não acha que eu deveria tentar com a Helena?”
Mateus o encarou. “Você não precisa da minha opinião pra isso.”
“Mas parece que eu preciso. Sempre parece que você sabe o que é melhor, então me diga: você acha que estou errado?”
Mateus ficou em silêncio por alguns segundos. “Helena não é para mim. E talvez não seja para você também.” Voltou a abaixar a cabeça e continuou a trabalhar.
Eduardo não respondeu. Ficou parado ali por um instante, tentando decifrar aquelas palavras. Então se virou e foi embora.
Naquela noite, sonhou com Mateus. No sonho, os dois estavam em uma sala cheia de espelhos. Eduardo olhava para o próprio reflexo, mas sempre se via com um aspecto diferente, nunca ele próprio. Tentava tocar o espelho, mas a imagem mudava a cada movimento. Quando acordou, ainda sentia o incômodo do sonho. Mas também se sentia decidido: tinha que resolver as coisas de uma vez.
Foi até o escritório de Mateus, mas o cômodo estava vazio. Havia apenas um grande espelho, antigo, com a moldura descascada. Eduardo se aproximou. Ao olhar para o reflexo, ficou imóvel. Por um instante, pareceu ver o rosto de Mateus.
Ficou ali parado, sem conseguir desviar o olhar, como se esperasse algo acontecer. “Mateus, você está aí?”, disse em voz baixa. Não houve resposta. Ao se afastar, percebeu que as roupas de Mateus não estavam mais lá. Nem seus papéis. Nem qualquer vestígio de que ele tivesse existido.
Eduardo voltou ao espelho e se olhou novamente, desta vez mais atento. Suas feições pareciam diferentes, nem Eduardo, nem Mateus. Sua expressão mais solta. Não sabia quanto tempo ficou ali, mas, ao sair do escritório já era noite, e sentiu como se tivesse deixado algo para trás.
Não houve mais sinal de Mateus. Quando perguntavam por ele, Eduardo dizia que havia ido embora. Algumas pessoas lembravam de Eduardo como alguém confuso, alguém que “não sabia bem quem era”. Outras juravam que nunca havia existido mais ninguém, apenas Eduardo, e que tudo o que ele dizia sobre Mateus era invenção. Talvez fosse.
Eduardo se casou com Helena, e dois anos depois tiveram o primeiro filho, que levou o nome do velho conhecido.