Sete Além

Ser barista é mais do que preparar café; é uma arte, um ritual. Cada grão carrega uma promessa de algo maior, e cada vaporização é uma dança que exige atenção. Meu trabalho vai além do café. É sobre criar momentos, oferecer pausas para vidas que, muitas vezes, não percebem a necessidade de respirar. No fim, o que entrego não é apenas uma bebida; são experiências, memórias.

Mas ser barista também tem um lado silencioso. Entre uma xícara e outra, observo o mundo que passa. Cada rosto, cada pedido, uma história em movimento. As manhãs são as mais caóticas.

“Me dê um café preto!” alguém grita, apressado.

“É pra já!” respondo, sem perguntar nada.

“Quero um expresso duplo. Estou atrasado.”

Sempre fico pensando: onde está a experiência em um café “com pressa”? Cinco minutos de pausa seriam tão prejudiciais assim? Observo essas pessoas e penso em como estão apressadas para tudo, até para viver.

Depois do pico da manhã, chegam os outros. Aqueles que vivem sem tanta pressa, ou talvez apenas sem rumo definido. Eles me dão um pouco de paz.

“João e Mariana! O de sempre?” pergunto, já sabendo a resposta.

“Sim, por favor!” Mariana responde com aquele sorriso que sempre me faz sentir como se o café fosse só uma desculpa para a conversa.

Antes que eu possa continuar, João dispara: “Vocês não vão acreditar onde eu fui parar ontem!”

“Onde?” pergunta Mariana, curiosa. “Conta logo!”

“Fui parar em um lugar chamado Sete Além. Nunca vi nada igual.”

“Sete Além? Nunca ouvi falar. O que tinha lá?”

João faz uma pausa, talvez para dar mais dramaticidade. “Era como outro mundo. Tudo parecia antigo e… estranho. As pessoas eram cinzentas, Mariana. Não só as roupas, mas a pele também. Foi aterrorizante.”

“Cinzentas?” Mariana repete. “Isso parece assustador.”

“E era. Desde o momento em que cheguei, senti que não devia estar lá. O silêncio era estranho, pesado, como se aquele lugar guardasse algo que não devia ser descoberto.”

“E como você saiu de lá?” ela pergunta, inclinando-se como se quisesse entrar mais fundo na história.

“Corri para o carro assim que percebi que algo estava errado. Dirigi o mais rápido que pude, e quando finalmente vi as cores do nosso mundo novamente… que alívio.”

“Você voltaria lá?” pergunto, mais para ver se ele está sendo sincero ou apenas dramatizando.

“Nunca. Uma visita foi mais do que suficiente. Prefiro ficar por aqui, onde as pessoas têm cor.”

Mariana ri, quebrando o clima. “João, vamos. Temos que ir para o Oito Além agora!” brinca ela.

“Isso não tem graça,” responde João, visivelmente chateado.

Sorrio para mim mesmo enquanto entrego os pedidos. Ouvir essas histórias é parte do que torna meu trabalho único. No fim do dia, são essas narrativas que costuram a vida. Penso nisso enquanto fecho o caixa e me despeço dos meus colegas.

No caminho para casa, gosto de ouvir os sons ao meu redor. O barulho dos carros, as conversas das pessoas, até o canto de algum pássaro perdido na cidade. Para mim, tudo soa como uma única melodia. Não vejo diferença entre os sons artificiais e os naturais. Somos todos parte da mesma música, mesmo que às vezes desafinemos.

Quando chego em casa, minha esposa me recebe com um sorriso. Dou um beijo nela, esperando por algo inesperado.

“Como foi o trabalho hoje?” ela pergunta.

“As mesmas histórias de sempre,” respondo. “Só o João que disse ter ido parar naquele lugar… Sete Além. Você já mencionou isso uma vez, lembra?”

“Ah, sim! Que interessante!” ela diz, enquanto tira os sapatos. “Meu dia foi normal. Vou tomar um banho.”

“Tudo bem. Depois vou eu. Quer comer algo?” pergunto, seguindo-a com o olhar.

“Escolhe você. Ah, e feliz aniversário,” diz ela casualmente, antes de desaparecer no corredor.