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Relato de um homem sem vida
A luz dos faróis foi a última coisa que vi. Um clarão repentino cortando a escuridão da noite enquanto eu caminhava pelo acostamento daquela estrada deserta. Não houve tempo para reação, apenas o impacto violento, o som de ossos se quebrando e então... silêncio.
A morte é um fenômeno curioso. Meu corpo jazia inerte no asfalto, mas eu continuava ali, de alguma forma, observando. Uma consciência sem corpo, presa àquela cena como um espectador invisível de minha própria tragédia.
Quatro silhuetas saíram do carro. Jovens, talvez entre vinte e poucos anos. Dois rapazes e duas moças. O motorista tremia tanto que mal conseguia ficar de pé.
"Meu Deus, meu Deus! Ele está morto?" perguntou a garota de cabelos curtos, sua voz quebrando em pânico.
"Claro que está morto, Júlia! Olha o estado dele!" respondeu o rapaz alto que dirigia. Seus olhos arregalados refletiam o terror da situação.
Engraçado como não senti raiva deles. Talvez fosse porque a morte tivesse me libertado das emoções humanas, ou talvez porque conseguia ver o desespero estampado em seus rostos. Eram apenas jovens voltando de uma festa, com álcool no sangue e música alta demais para ouvir meus passos no acostamento.
"Temos que chamar a polícia," disse a outra garota, a de cabelos compridos.
"Você ficou maluca, Renata? Eu estava bebendo! Vou ser preso!" gritou o motorista.
"E o que você sugere, André? Deixá-lo aqui?" perguntou o quarto jovem, até então calado.
"Não, Lucas. A gente... a gente precisa esconder o corpo."
Queria poder dizer a eles que acidentes acontecem. Queria dizer que ligar para a polícia, assumir o erro, seria melhor do que o que estavam prestes a fazer. Mas mortos não falam.
Senti mãos frias e trêmulas me arrastando para o porta-malas do carro. Meu corpo estava mole, sem vida, e pesado, como eles constataram entre gemidos de esforço. A garota de cabelos curtos, Júlia, vomitou quando viram meu rosto sob a luz da lanterna do celular.
"Meu Deus, ele deve ter família... alguém vai sentir sua falta," murmurou Renata, enxugando lágrimas.
Sim, eu tinha. Uma esposa que agora dormia sozinha em nossa cama, sem saber que jamais voltaria para casa. Um filho de doze anos que esperaria em vão pelo jogo de futebol que prometi assistir com ele no fim de semana. Uma mãe idosa que eu visitava todo domingo. Todos aguardando por um homem que agora era apenas uma carga incômoda no porta-malas de um carro.
O veículo começou a se mover, e com ele, minha percepção. Eu estava de alguma forma conectado ao meu corpo, seguindo-o naquela jornada macabra.
"Para onde vamos?" perguntou Lucas, o mais calmo entre eles.
"Não sei, cara, preciso pensar," respondeu André, suas mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
"O que vamos fazer com ele?" soluçou Júlia. "Isso não pode estar acontecendo."
O carro serpenteava por estradas cada vez mais escuras. Os quatro discutiam, debatiam opções, choravam. Estavam presos em um pesadelo que eles mesmos criaram.
"Podemos enterrá-lo na floresta?" sugeriu Renata.
"E como vamos cavar um buraco grande o suficiente sem chamar atenção?" retrucou André. "Alguém tem uma pá no bolso por acaso?"
"Então o quê? Vamos ficar dirigindo pela eternidade com um cadáver no porta-malas?" a voz de Lucas subiu algumas oitavas.
Se eu pudesse sorrir, teria sorrido com a ironia. Um homem de 42 anos, contador, que nunca havia feito nada particularmente emocionante na vida, agora era protagonista de uma história digna de filme de suspense.
O carro parou em um mirante natural. Estavam em algum lugar nas montanhas, eu podia perceber pela inclinação da estrada que havíamos subido. O porta-malas se abriu e mais uma vez senti mãos me puxando, me arrastando. Minha cabeça bateu em algo duro – engraçado como, mesmo morto, eu tinha consciência do que acontecia com meu corpo, embora não sentisse dor.
"O que vamos fazer agora?" perguntou Júlia, abraçando o próprio corpo como se tentasse se proteger do frio, ou talvez da culpa.
Estava escuro, mas conseguia perceber que estávamos à beira de um precipício. A lua iluminava vagamente o cenário: quatro jovens apavorados e um corpo – o meu – estendido no chão.
"Tenho uma ideia," disse Lucas finalmente, depois de um longo silêncio. Ele havia ficado calado por tanto tempo que quase me esqueci de sua presença. "Meu tio tem um sítio perto daqui. Ele sempre deixa uma garrafa de cachaça no galpão."
"E daí?" perguntou André, confuso.
"E daí que podemos buscar a garrafa, derramar nele e jogá-lo daqui de cima. Quando encontrarem o corpo, vão pensar que ele estava bêbado e caiu."
Eles ficaram mudos. Até mesmo em meu estado não-corpóreo, pude sentir o peso da consideração moral que cada um deles fazia.
"É o melhor plano que temos," concordou André finalmente.
Lucas saiu em busca da tal garrafa enquanto os outros três ficaram comigo. Ou melhor, com meu corpo, mas também comigo. Renata chorava silenciosamente. Júlia olhava para o horizonte, como se tentasse escapar mentalmente daquela situação. André andava de um lado para o outro, fumando um cigarro atrás do outro.
Foi Júlia quem quebrou o silêncio:
"Alguém sabe quem ele é?"
André balançou a cabeça negativamente:
"Não quero saber. Quanto menos soubermos, melhor."
"Ele é uma pessoa," insistiu Júlia. "Tem um nome, uma vida... tinha," corrigiu-se, e começou a chorar novamente.
Sim, eu tinha um nome. Roberto Almeida. Não que isso importasse agora.
Lucas voltou com a garrafa. Sem dizer uma palavra, começaram a derramar o líquido sobre meu corpo. O cheiro forte de álcool se espalhou pelo ar.
"Isso é errado," murmurou Renata, mas não fez nada para impedir.
"Já passou do ponto de certo ou errado," respondeu André. "Agora é sobrevivência."
Eles me arrastaram até a beira do precipício. Eu sabia o que viria a seguir. Meu corpo seria lançado no abismo, encontrado dias depois por algum caminhante, e seria declarado como um acidente trágico de um homem que bebeu demais e caiu.
"No três," disse André. "Um... dois..."
Foi nesse momento que percebi algo curioso: enquanto eles se preparavam para se livrar de meu corpo, notei que uma pequena parte da minha carteira estava visível no bolso traseiro da minha calça. Nela havia uma foto de minha família, um lembrete do seguro de vida que eu havia feito recentemente. Pelo menos minha esposa e meu filho montariam numa boa quantia de dinheiro.
"Três!"
Senti meu corpo ser jogado no ar. A sensação de queda foi estranha – não havia medo, apenas uma espécie de curiosidade distante. Enquanto meu corpo despencava, percebi que minha consciência começava a se desprender dele, elevando-se ao invés de cair.
De cima, vi meu corpo atingir rochas, vi os quatro jovens se afastando rapidamente, entrando no carro e desaparecendo na noite. Observei como parecem pequenos e insignificantes vistos de longe, assim como todos os problemas e preocupações que antes me pareciam tão importantes.
Não sei que destino os aguarda. Talvez a culpa os consuma, talvez consigam seguir suas vidas fingindo que nada aconteceu. Talvez algum dia a verdade venha à tona.
Quanto a mim, estou em paz. A morte é apenas o início de outra jornada. E é curioso como, mesmo após o fim, ainda temos histórias para contar – mesmo que ninguém possa nos ouvir.