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O preço do sonho
Ninguém sabia como ou por que aquele homem tinha aparecido em Araxápolis, uma cidadezinha mineira que se orgulhava de suas padarias e de um sinal de Wi-Fi que, com sorte, funcionava até nos dias de chuva. O que sabiam era que ele atendia pelo nome de Victor Sírius – um nome que, para os mais atentos, lembrava alguma coisa relacionada às estrelas. Mas o mais intrigante não era o nome, e sim os drones prateados que sobrevoavam a casa que ele havia alugado nos arredores da cidade.
Todos os dias, entregadores da região se revezavam para levar pacotes de tamanhos variados para a casa de Victor. As caixas vinham com selos de lugares como Roswell, Reykjavik e uma ilha cujo nome nenhum dos curiosos conseguiu pronunciar. “É um cientista”, disseram alguns. “É um youtuber milionário”, arriscaram outros. O mais especulativo foi José Faísca, dono de um pequeno canal de teorias conspiratórias no TikTok, que garantiu ter visto Victor com "uma antena brilhante na cabeça" durante a madrugada.
Tudo mudou quando Arlindo, o pedreiro, voltou de um serviço na casa do recém-chegado. Reunido no bar da praça – o verdadeiro centro nervoso de Araxápolis –, Arlindo contou, entre um gole de cerveja e outro: “Mandou fazer uma sala com todas as paredes de vidro. E tem umas caixas estranhas, parece coisa de outro mundo."
A partir daquele dia, Araxápolis virou um barril de especulações. Para uns, Victor era um cientista tentando contato com extraterrestres. Para outros, um alien disfarçado de humano. Dona Cleusa, que vendia sonhos na pracinha - tinha os de creme, de doce de leite, e os de goiaba, jurava de pé junto que tinha visto “luzes piscando em verde e roxo” saindo da casa dele à noite.
Mas foi durante um inesperado evento na escola municipal que a verdade começou a ganhar forma. Victor Sírius apareceu como convidado especial numa feirinha de ciências. Ele chegou de surpresa, com um laptop futurista que projetava hologramas no ar. Disse que estava ali para ensinar às crianças sobre energia limpa e o uso responsável de recursos naturais. Tudo parecia normal até ele soltar, de maneira quase casual:
“É possível converter certos minerais terrestres em metais raros, como o ouro. Mas isso já não vale muito, o negócio mesmo é o dinheiro virtual. Mas isso também não é nada, há algo ainda mais valioso que estamos desperdiçando.”
“O quê?”, perguntou uma professora, a voz carregada de ceticismo.
Victor sorriu e respondeu: “Os sonhos.”
A frase era confusa, mas o suficiente para disparar uma avalanche de boatos na cidade. Naquela noite, um grupo de moradores se reuniu na casa de Dona Cleusa para discutir. Era consenso: Victor estava escondendo alguma coisa.
Dias depois, Victor fez outro pronunciamento enigmático na prefeitura. Ele afirmou que os habitantes de Araxápolis poderiam prosperar incrivelmente caso aceitassem participar de um tal experimento. Não era algo convencional. Ele não queria dinheiro, terra ou documentos. O que ele pedia eram... sonhos. Mas não os do tipo que a Dona Cleusa vendia.
“Sonhos?”, questionou o prefeito Arnaldo, um homem prático que só pensava em asfalto e churrasco.
“Exatamente”, explicou Victor. “Os sonhos contêm energias que vocês ainda não compreendem. Se me permitirem coletar essa energia, prometo algo em troca que transformará Araxápolis em um lugar próspero como nunca.”
A promessa de riqueza mexeu com todos. Bastou uma semana para que Victor fosse visto como um messias. Ele instalou uma estranha máquina no centro da cidade – um domo de cristal que parecia pulsar, como um coração vivo. “Cada sonho enviado”, explicava, “sustenta o funcionamento do domo. E, quando ele atingir sua capacidade, devolverá algo incalculável.”
Os habitantes aderiram à ideia com entusiasmo. Toda noite, centenas de pessoas caminhavam até o domo, se conectavam às suas estranhas antenas e deixavam que seus sonhos fossem coletados. Em troca, Victor começou a distribuir uma tal criptomoeda como prova de sua seriedade. Muitos nem sabiam que bicho era esse, mas como todo mundo só falava disso, assim acabou sendo.
Porém, algo inesperado começou a acontecer. Quanto mais as pessoas se conectavam ao domo, mais apáticas e indiferentes elas ficavam durante o dia. Não havia mais vontade de trabalhar, de conversar ou de rir. A cidade entrou em um estado de letargia, como se sua vitalidade estivesse se esvaindo.
Foi então que o jovem Tião, um programador autodidata que nunca tinha confiado em Victor, decidiu hackear o sistema da casa dele. O que ele descobriu: os dados coletados não eram apenas sonhos, mas também fragmentos de emoções e memórias que estavam sendo enviados para um satélite na órbita terrestre, e tudo em troca de uns trocados.
Victor desapareceu numa noite sem lua, e levou com ele o tal “algo incalculável”. Quando Tião revelou a verdade à população, houve choque e revolta. Araxápolis nunca mais foi a mesma. Ninguém sabe o que Victor realmente fez com a energia roubada ou para onde foi.
Sob o mesmo céu estrelado que uma vez parecia repleto de esperança, agora pairava a sensação de que o mundo havia ficado menor. E, em noites mais silenciosas, quando o vento sopra entre os telhados, há quem jure ouvir uma voz distante, como um eco vindo das estrelas, dizendo: “Obrigado por sonharem.”